E
aí, bacana? Tudo certinho por aí?
Por aqui, nem tudo. Mas você sabe: até que eu me divirto.
Como andam as coisas? A casa ainda tá de pé, não?
Eu falei, rapaz: serviço bem feito. Primeira linha!
E o seu filho, o que queria ser doutor? Deve estar quase formado, não?
Olha chefe, eu gostava bastante dele. Torcia mesmo. Me divertia ver o
moleque estudando, dando porrada na cabeça até gritar “Ah!
Era só isso?!”. Espero que ele esteja bem.
Por falar em família, bacana, tá lembrado que naquele tempo
minha patroa tava pra parir, né? Um meninão, cara! Olha,
tá bonito mesmo!
Não pude dar pra minha família uma vida cheia de luxo, ou
alguma coisa um pouco mais próxima da vida aí na sua casa.
Mas também nunca deixei faltar nada lá no barraco: comida,
roupa, e até uns passeios nos fins de semana. Mesmo assim, a patroa
resolveu sair fora. Pra isso eu nem liguei, mas o chato é que ela
levou meu garoto.
Eu continuo por aí, na batalha. São horas pra lá,
horas pra cá, horas no trampo. É pelo moleque que eu ainda
tenho as unhas destruídas, a mão rachada, as costas doloridas.
E nem reclamo, porque quero ver o garoto numa melhor do que eu. Quero
que ele cresça como criança, podendo brincar, estudando.
Um dia, quem sabe, quero vê-lo doutor, igual ao que seu filho dizia
que ia ser.
Passo o mês trabalhando, sem parar. Pego quase todo meu trocado
e entrego pra mãe do filhote.
Ontem teve um cara de terno aqui no meu barraco. Chegou num carro meio
bacana, não tanto quanto aqueles seus, mas era bacana. Saiu, bateu
na porta, me deu um papel e disse que eu tinha que assinar. Fiz meu rabisco,
porque isso eu aprendi quando era novo. Daí ele disse que eu tenho
que ir ao juiz sei lá que dia. Parece que meu trocado não
é suficiente pra criar o garoto. A mãe reclamou e o cara
de terno disse que eu posso até ser preso! É mole, chefe?
Eu, preso? O que é que eu posso fazer? O que entrego na mão
da mulher é tudo o que me sobra, tirando uma partezinha pro arroz
com feijão, um ovo frito aqui e ali, uma cerveja no sábado
e só.
Tô pensado em vender minha tevê. Isso não serve pra
muita coisa mesmo, ainda mais com essa antenazinha ruim que eu tenho aqui.
Só não sei se vai satisfazer o cara de terno.
Tenho o domingo livre também. Vou ver se arrumo um trampo pro domingo,
só até umas quatro da tarde, que é pra chegar em
casa antes das sete,e dormir um pouco antes de levantar as quatro da manhã
da segunda.
Olha, meu caro, acho que vou ficar por aqui mesmo. Não vou ficar
falando dos meus problemas não, porque como disse, até que
me divirto.
Se qualquer dia você tiver alguma coisa pra arrumar aí, pode
me chamar, bacana.
Sabe que eu sou bom no que faço, né? Um puxadinho, uma garagem,
uma torneira pingando, uma mansão pra construir... pode chamar,
que o serviço aqui é de primeira.
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