Deus Me Livre de Ser Roqueiro  

Sexta-feira, Central do Brasil. Meio-dia. Trem para casa, muito calor. Algum cansaço.
Estação Engenho de Dentro. Dois garotos. Dezesseis, dezessete anos. O moreno, mais alto, munhequeira do Pearl Jam, camisa estampada com o mais patético e superestimado (põe super nisso) “ídolo” da juventude pós década de 90: Kurt Cobain. O menor, loiro, camisa estampada com a capa do pior disco que uma banda com mais de vinte e tantos anos de estrada poderia ter concebido: St. Anger, Metallica, além de um casaco flanelado xadrez (e ainda era sexta, meio-dia e tantas, calor...). Os dois cabeludos, calças jeans imundas.


- Pó cara, minha mãe coloca na rádio evangélica pra eu ouvir quando ligar o som!
- Caraca!
- É... mas eu troco.
- Pode crer. Mas ouvir música direto também cansa.
- É. “Tchuunnn… Arquivo do Rock....”
- Pó, muito chato.
- É. Scorpions...
- “Still love youuuuu…”
- Hehe. Meu armário tá imundo.
- Minha casa ta sendo invadidas por formigas.
- Não. Lá em casa são aquelas baratinhas voadoras pequenas.
- Sei qual é.
- Zum... planando até o chão.
- Mata, ué!
- Mas é um montão.
- Ah... Nirvana é foda, né cara?!
- É, mas sem traduzir.
Os dois, em uníssono:
- Estupre-me, estupre-me meu amigo...
(Silêncio, por uns quinze segundos)
- Ta chegando.
- É. Uma vez no ano nossa cidade é famosa. Aparece na tevê.
- Quero ouvir Rádio Cidade no almoço.
- Pode crer.


Nilópolis. Descem os dois.

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