Nos
tempos de colégio, ela chegou no melhor estilo “bicho-do-mato”.
Figurinha acanhada, encolhida, com ar amedrontado.
Era monossilábica, mas só falava quando era questionada.
Era dada apenas aos “sins” e aos “nãos”,
ao rosto vermelho e aos olhares desviados para o chão. E era feia
que dava pena. Na verdade, esquisita. Caruda, aparelho nos dentes, óculos
grandes e cabelos mal penteados.
Com o tempo passando, e o convívio intenso, ela começou
a se soltar: aprendeu a rir feito gente, e a falar algumas palavras, a
levantar a cabeça de vez em quando. Mas ainda era figurante.
Arrumou uma amiga. Uma garota engajada, faladora, mas arrogante que só.
Agora ela aparecia um pouco mais, porém, sempre na aba da outra.
Foi então que começou a falar de sua vida. Como, à
princípio, ninguém estava interessado nesse assunto, surgiu
na história um irmão mais novo, de quem ela deveria cuidar.
Surgiram também as pilhas de roupas para lavar, e as louças,
e os cômodos a varrer. Falava de maltratos, da falta de amor de
seus pais para consigo. Seria mesmo uma coitada.
História comovente. Ganhou mais duas amigas.
Passaram-se meses. Ela aprendeu a pentear os cabelos.
Passaram-se meses. Ela descobriu as lentes de contato.
Alguns anos depois, certas coisas eram diferentes. Seu ar de miserável
serviu para prender a atenção de outras pessoas. Ela também
aprendeu a formular frases completas. E estava menos feia (mas lembrem-se:
milagres não acontecem.). As pessoas também haviam se desinteressado
por suas histórias, à medida em que ela foi se entrosando.
Já não havia mais necessidade para coisas tão improváveis.
Mas chegou a formatura. E todos para suas vidas. Ninguém, exceto
a arrogante e as outras duas amigas, quis saber mais sobre ela.
Se sentiu só outra vez, e foi então que arranjou um namorado.
O típico bruto, com mania de perseguição, para quem
ninguém presta. E logo em seguida confessou para a amiga arrogante:
“Ele me agride.” A outra, é claro, não se permitiu
calar. Saiu por aí falando: “Ela apanha.”
O namorado cobrou, a feiosa desmentiu, a arrogante se irritou e a amizade
acabou.
Ultimamente, ela tem falado em telefonemas ameaçadores. Amigos
de uma ex-namorada de seu namorado machão. Não obstante,
diz que uma de suas antigas amigas, uma daquelas duas dos tempos do colégio,
foi quem divulgou o número de seu telefone.
Ela é mesmo assim. Só precisa de atenção.
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