O Outro Membro do Clube  

Odeio segunda-feira. Ainda mais quando tem jogo no domingo. Ali fora só se fala de futebol.
Acho que nunca vou conseguir entender isso tudo. Não o futebol, ou a segunda-feira, digo tudo mesmo. Eu nunca entendo nada.
Tô cansado pra cacete. Essa história de faculdade pela manhã é de matar qualquer um. Eu tiro meu all star, continuo com a meia, me atiro na cama. Soundtrack: White Álbum, à 33 rotações e 1/3, com estalinhos e tudo, bem do jeito que eu gosto.
Já faz algum tempo que deixei de me barbear. Sabe de uma coisa? Quase não se percebe.

Às vezes quase me convenço das coisas que os outros me dizem: eu devo ser mesmo um velho. Sou ranzinza, resmungão, gosto de LPs e tô usando uma camisa quadriculada. Mas, feito criança, como disse, nunca entendo nada. Quer maior paradoxo que isso? Sou um velho crianção.

Tá bom, eu odeio segundas. E odeio terças também, feito aquele personagem do Tom Hanks em “O Terminal”. Mas afinal, além de LPs, Beatles e roupas bregas, do que mais eu gosto?
(Vou pensar com calma. Prometo que um dia ainda encontro a resposta.)

Um pouco de café nunca é ruim. Ansiolíticos de vez em quando também não. E, mais por necessidade que por gosto, antiácido é sempre bem recebido.

Uma coisa em que eu realmente vejo beleza, e não é gozação, é aquela máquina de auto-atendimento da coca-cola. Eu aqui falando sério, e você deve estar pensando que é brincadeira, mas não é. Eu REALMENTE acho o maior barato aquela máquina toda imponente, com a luz verde a indicar “seu dinheiro aqui”, e todas aquelas fotos bem produzidas, que lhe dá vontade de comprar logo o tal refrigerante de sabe-se lá o que.

Sábado eu saí com dois amigos para beber. Quer dizer, eles bebiam e eu olhava - é que ainda tô nessa onda de caretice. Enfim, o cabeludo me tirou de casa na hora em que eu já estava pronto pra dormir. Depois de um pouco de insistência, lavei o rosto, peguei uma camisa com listras horizontais (são nessas horas que quase me ouço dizer: “ah, seu velho!”) e nós fomos. O outro amigo, o barbudo, já estava por lá.
Sabe esses barzinhos com cara de “o último recanto boêmio”? O lugar é bom, sem aqueles pinguços fedorentos. Só complica um pouco quando enche de moleques querendo encher a cara. Nada contra encher a cara, mas gente falando alto o tempo inteiro é um pouco chato de aturar.
Foram longas horas de cerveja (eles), coca-cola (eu), uísque (barbudo), versos de uma canção dedicada à uma boneca inflável (cabeludo), espancamento verbal na mídia (eles) e “não é bem assim não” (eu).

Esse é o tipo de coisa que sempre faz tudo valer a pena.

Já pensou se eu tivesse mesmo sido pai? Puta merda! Tomo susto só de pensar. Adoro criança e tudo, mas, de boa, não sei se estaria preparado. Ela era uma menina, era uma chata, mas eu tava sozinho, então, sem problemas. Terminei assim que pude. E fora as crises de choro, ela não teve nada a me dizer. Fiquei sabendo do aborto uns dois meses depois que terminamos, por outra pessoa. Ela jurou que não era meu, mas eu sei que era. Eu sei que ela mentiu, e nunca mais voltamos a nos falar. É estranho dizer, mas, estive grávido, e perdi o bebê.

Piercings não ficam bem em qualquer pessoa. Na sobrancelha então, acho bem sem graça. Eu ficaria horrível com piercing em qualquer lugar. Mas aquele transverso, de um lado ou outro da orelha, em certas meninas, me deixa louco.

Hoje não tem jogo.

Cada um dos dois lados de cada um dos dois discos dos besouros já tocou por aqui. Já ouvi cd do Hermanos, já ouvi o Pet Sounds (e que os também sagrados Sargent e The Pipper me perdoem, mas esse é o meu psico favorito!), e agora tô ouvindo Richard Ashcroft (Verve era bacana).
Foram quatro copos de coca-cola, um pacote de batata palha, dois comprimidos (dos de três miligramas) de Bromoxon, um copo d’água com bicarbonato de sódio e uma longa escovada nos dentes.

Sozinho com todo mundo.

Odeio as segundas, odeio faculdade, odeio futebol. E também odeio terça.

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