| Réquiem | |
Acabo
de sair do banho. Coloquei a toalha pra secar lá no varal, do lado
de fora. Também não deixei o chão do banheiro molhado,
passei pano, tá tudo limpinho. A roupa também já
pus pra lavar. Limpo, arrumado, cheiroso, penteado. Acho que já estou pronto. Você sempre soube que não precisaria de muito esforço. Sempre estaria aqui por você. Sempre tentei ser aquilo que você procurou, aquele com quem você sonhou, aquele que você pediu aos seus deuses, nas suas rezas, decoradas ou não. Eu viveria em eterna mutação apenas por saber que um dia chegaria a ser o mais próximo possível da sua tão sonhada perfeição. Você sempre se esforçou para que eu, tão mau aluno, pudesse um dia conseguir passar na prova. Agora estou aqui, sentado na sala, do lado do telefone, mas ele não toca. Eu espero, e ele não toca. Eu transpiro, e ele não toca... Tão
simples: é só você dizer que vem que eu vou para a
varanda lhe esperar. Você
ficou na cama até mais tarde aquele dia. Eu não quis lhe
acordar (lhe ver sonhar sempre me fez tão bem...). Daí vieram
outros, me gritaram. Eu não atendi. Não queria que você
acordasse. Mas eles entraram, me levaram de perto de você. Diziam-me
coisas que eu não conseguia compreender, palavras sem sentido,
frases soltas. – Eu não ouvia mais nada. Já faz alguns dias. Achei que você voltaria hoje. Devo ter me confundido. Mas amanhã é outro dia: eu tomo outro banho, eu visto outra roupa, eu passo o mesmo perfume. Você
sempre soube que seria assim. É só você dizer que
volta que eu fico na varanda a lhe esperar. |
|