Dentes  

Você me vê e sorri.

Eu, parado ali, banco de praça, cara emburrada, meio sem jeito. O mesmo cara de sempre.
Você também, pouco mudou. O mesmo casaco listrado, saia jeans, chinelinho de dedo. Os mesmos cabelos, o mesmo sorriso, o mesmo brilho no olhar. A mesma luz que já me fez engolir a seco, por tantas vezes, minhas pequenas e constantes frases de lamentações.

Há quanto tempo? Há quanto tempo não cruzamos os mesmos caminhos? Há quanto tempo não andamos com a mesma turma? Há quanto tempo - admito - sequer lembrava que você existia?
Mas agora você atravessa a rua. Para mim, quase slow-motion. Parece ter pressa, mas sua expressão não esconde: está feliz em me ver.
Movimenta a cabeça, e, delicada, a mão direita, acenando com um pequeno tchau.
Por um instante penso em centenas de coisas - em frases, em festas, em roupas, em qual será o número do seu telefone e em o que você vai fazer sábado a noite. Em como você é absolutamente linda em todos os aspectos que já tive a oportunidade de conhecer, do tipo como-adoraria-passear-de-mãos-dadas-com-essa-mulher, em dias cinzas como hoje, em dias de sol como ontem.

E agora você passa quase ao meu lado, ainda sorrindo.
Eu, parado ali, banco de praça, não mais emburrado, ainda sem jeito, retribuo com um “olá”. Três letras, uma palavra, e um imenso prazer em dizê-la.

Acontece quando menos se espera.
Aqui vou outra vez…
Humano, fraco, ranzinza, clichê. Quem sou eu para evitar?

No fim só quero estar onde morar o teu sorrir.

 

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