Laudo  

Na Munheca - Conte pra quem não conhece sobre quem é o Laudo e o que tem feito.


Laudo - Laudo é um cidadão nascido na cidade de São Vicente, litoral de São Paulo há 42 anos atrás. Sou autodidata e como quase todos os desenhistas, desenho desde pequeno.
Iniciei nos quadrinhos “profissionais” no início dos anos 80, produzindo material erótico e de terror para a extinta Editora Press, pelas mãos do Franco De Rosa.
Participei ativamente do movimento fanzineiro em seu período áureo, meado dos anos 80 até início dos 90, foi nesta trilha que lancei alguns trabalhos independentes como “Balada para o futuro” e “O duelo” pelo editor independente Edgard Guimarães.
Em 1995 lancei pela Editora Nova Sampa a graphic com a adaptação para quadrinhos do filme “À meia-noite levarei a sua alma” do cineasta José Mojica Marins, o Zé do Caixão, neste período também produzi algumas hq’s curtas do mesmo personagem lançadas em revistas mix como “The Brazilian Heavy Metal”.
Em 2000 lancei junto com o roteirista André Diniz a hq “Subversivos: companheiro Germano”, uma das publicações que deram o pontapé inicial para lançar a editora Nona Arte no mercado. Neste mesmo ano criei para a editora Rickdan (a mesma que publica a revista Sexy )a personagem Tianinha para uma série de quadrinhos na revista “Total” . A personagem com o passar do tempo vem alcançando seu espaço, seu público e está aí já há seis anos, e entrando para o sétimo, de publicação ininterrupta.
Paralela à série da Tianinha, desenvolvo uma outra série de hq’s eróticas com as personagens Debie e Mônica para a revista “Sexo e Êxtase” da editora Gênero, embora venha sendo produzida há menos tempo, quase dois anos, esta série também parece ter caído no gosto dos leitores . E neste ano de 2006 lancei pelo meu estúdio, a revista “Prazeres de Belinda” .
Tenho meu estúdio, o Banda Desenhada, em parceria com o arte-finalista Omar Viñole onde trabalho com publicidade, mercado editorial e eventos . Minha parceria com o Omar, além de nossa amizade é algo sólido, pois já estamos trabalhando juntos há dez anos.

NM - Como é seu dia a dia?


Laudo - Nada de excepcional. Levanto muito cedo, às vezes 5 da manhã já vou pra prancheta, mas normalmente levanto as seis, faço meu café caprichado e sete e meia já estou trabalhando e vou neste ritmo normalmente até umas 20 h. Lógico que dou meus intervalos, almoço, enfim, é bastante normal meu dia.
Como trabalho com eventos, atuando como caricaturista ao vivo, fazendo muitos congressos e feiras, algumas vezes fora de São Paulo, costumo adequar o meu ritmo de estúdio com o evento fora .

NM - Para você, qual a importancia das HQs independentes?


Laudo - O quadrinho independente é o pólo criador das hq’s, no caso, nacionais. É de lá que saem os grandes criadores de quadrinhos . Criadores mesmo. Roteiro e desenho. A moçada que se aventura a desenhar para o mercado externo, americano, desenvolvem um talento excepcional no traço, acabamento, anatomia e tudo o que é preciso, mas em contrapartida, eles apesar de colocarem este talento em prol de uma revista de linha não trabalham com a criação pura, compreende ? Digo isso no sentido literal do termo “criar” e nisso os quadrinhos independentes possibilitam a plena liberdade .
Sou de uma geração de desenhista e roteiristas que vieram de um forte movimento de fanzines/quadrinhos independentes : Flávio Calazans, Gazy Andraus, Edgar Franco, André Diniz, Edgard Guimarães, Emir Ribeiro, Henry Jaepelt, Érico San Juan, Cedraz, e o saudoso Joacy Jamis são alguns nomes, que produziram e produzem ainda material de excelente qualidade . Criadores.
Portanto, mesmo hoje, com a internet, a melhor escola pro novo autor é o caminho independente, os fanzines, as revistas alterntivas e os flogs/blogs . São através destes meios que ele irá mostrar sua criação e ter o termômetro com os leitores ou freqüentadores de suas páginas na net para saber se é bom ou ruim .
Vale ainda dizer que o ato de “se dispor a criar algo” já é valiosíssimo, fundamental para que a pessoa cresça e isso não importa a qualidade do que se faz . Tem muita gente por aí que vive criando atritos, confusões, desestimulado jovens criadores.
Qualquer forma de censura à criação é um desrespeito, mesmo vindo de gente que se diz apoiar a criação plena, esta aliás, é o pior tipo.


NM - Como foi criada a Tianinha?

Laudo - A loira safada foi criada por encomenda da editora Rickdan (que publica a revista
Sexy) através de seu editor Licínio Rios, aliás veio dele o nome da personagem . Isso foi em 2000. Na ocasião a editora havia criado um novo título chamado “Sexy Total”
(que posteriormente viria a se chamar só “Total”) que seria uma versão menor, no tamanho formatinho, e mais barata da revista carro-chefe da casa, a “Sexy”.
A idéia era, fora algumas notas e pequenas matérias e é claro, mulherada pelada, que a revista fechasse com uma história em quadrinhos de quatro páginas .
Na ocasião, o Licínio sugeriu que fosse uma série com três personagens, um carinha descolado e bonitão, o Maninho, um negro boa pinta, boa praça e traçador, o Polaco e a loira safada e descola, a própria Tianinha. A série foi levada pelos três personagens no primeiro ano, quando entramos já em 2001, respectivamente para a “segunda temporada”, a Tianinha já era a personagem que os leitores mais curtiam, eu e os editores resolvemos então que a série seria só dela, inclusive ganhando um título –Sacanagens da Tianinha- que está aí até hoje.
Vale dizer que agora em 2007 entramos no sétimo ano de produção de suas hq’s ininterruptas . Isso só vem me deixando muito feliz. Não só pelo trabalho em si, mas principalmente por ver uma personagem que vingou, tem seus leitores cativos, lgo difícil e raro de acontecer nos quadrinhos nacionais.

NM - Quais os planos pra 2007?


Laudo - Bem, continuar a série da Tianinha . Temos já o cronograma de histórias dela até dezembro . Continuar também com a série da “Debie e Mônica” . Eu e o Omar, meu arte-finalista e parceiro do Estúdio Banda Desenhada, pretendemos lançar depois do carnaval o segundo número de “Os prazeres de Belinda” e o principal de tudo é tentar, finalmente lançar o primeiro volume de Yeshuah . Trata-se de algo bem diferente do que a rapaziada conhece dos meus trabalhos, principalmente no que se refere aos desenhos como temática . Conforme dá para perceber pelo título (pelo menos quem conhece um pouco de religião e história antiga), trata-se da vida de Jesus, dentro de uma visão minha . O primeiro volume chama Assim embaixo assim em cima . Esta hq já venho produzindo desde 2000, um pouco depois de lançar Subversivos: Companheiro Germano e tem consumido muita, muita pesquisa de minha parte e muitas, muitas páginas desenhada . Há uma intenção nesta hq, uma proposta de como apresentar uma história que todo mundo já conhece, vamos ver se quando for editada, os leitores venham a curtir.
A hq toda será contada em três volumes . Roteiro e desenhos meus e arte-final do Omar. Os dois primeiros volumes já estão prontos.
O mais difícil é vencer a barreira editorial que parece não assimilar muito bem o espírito da coisa.

NM - Pra despedir, dê seu recado, e indique algumas HQs que você acha legal pra quem nunca leu gibi na vida.

Laudo - Quero agradecer antes de qualquer coisa, ao Douglas e a rapaziada do Na Munheca pela chance de poder contar um pouco aqui do que faço e tudo mais. Temos vivido uma fase de expansão dos quadrinhos nacionais e isso é legal, porém não devemos ficar esperançosos, pois outros momentos assim já aconteceram antes e depois caíram. O importante é produzir e incentivar a produção e manter o tesão pelo fazer quadrinhos.
Tenho visto por aí verdadeiros virtuoses do desenho, grandes feras, porém não considero isso criadores de quadrinhos . São talentos, de grande técnica. Mas o criador tem outra cara, e necessariamente não precisa ser uma virtuose.
Olha, não vou indicar esta ou aquela hq . Tem muita coisa boa . Brasileira, americana, européia, japonesa e de outros países . A minha base de quadrinhos foi primeiro os heróis, li muito Flash Gordon, Principe Valente, isso início dos anos 70, a coisa era mais comum encontrar em bancas . Depois vieram os super americanos, aqueles básicos Superman, Batman, Capitão América (descobri o Jack Kirby nessa), aí a cabeça mudou quando descobri os nacionais . Nos meados dos anos 70, tinha muita coisa brasileira acessível nas bancas, aliás, grandes publicações com mestres como Gedeone, Fernando Ikoma, Cláudio Seto, Zalla, Colonesse e principlmente Nico Rosso de quem até hoje sou fãnzaço e muito, muito me influenciou. E por fim, no início dos anos 80 vieram os europeus que fizeram definitivamente a cabeça : Moebius, Crepax, Manara e principalmente Bilal me mostraram que haviam outras possibilidades de se criar quadrinhos fora daquela linha que os americanos vinham fazendo.
Porém, é importante deixar um toque importantíssimo pra rapaziada nova que está começando nos quadrinhos, escrevendo, desenhando, criando suas histórias e personagens . Não leiam só quadrinhos, é fundamental isso . Busquem outras mídias, outras formas de expressão, outros autores, distantes deste mundo dos comics
Pois só assim você irá acrescentar qualidade e competência à sua criação . Grandes mestres, tanto de fora, como daqui, não possuem referenciais só de quadrinhos. Um cara como o Colin, por exemplo, era extremamente culto (sem ser chato, que fique claro!!!) ou Allan Moore, não escreveria peças como Do Inferno ou Liga Extraordinária, sem uma boa base literária. O resto é então sentar na prancheta e produzir.

 

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